sexta-feira, 21 de dezembro de 2012

Sobre palavras e iscas



A exemplo de inúmeros geniais escritores brasileiros, Clarice Lispector soube como chegar bem perto das palavras e contemplar suas faces secretas (Drummond vislumbrou mil delas numa única palavra). Lúcida, não tentou nomeá-las, ciente da fluidez que lhes é característica: buscava algo maior (ou menor?) que a palavra, algo além (ou aquém?) do signo linguístico. Clarice buscava o sentido que não havia antes da palavra e nem jamais haveria novamente, o sentido singular daquela palavra naquele momento, lugar e olhar. Mudando-se o tempo, ou o espaço, ou o leitor (ou todos os elementos, como é mais comum) o sentido já é outro. Novos sentidos habitam a mesma palavra que paradoxalmente se torna outra para outros sem deixar de ser, ela mesma, o fio de uma trama sem início nem fim. Sem fim pelo que acabamos de dizer, e sem início porque os sentidos não são produzidos a partir do “nada”, mas recorremos a palavras ditas desde há muito antes de nascermos. Um autor russo chegou a dizer que apenas o Adão mítico, ao chegar com a primeira palavra num mundo virgem, poderia escapar de se referir a lugares, ideias, objetos e práticas anteriores a sua própria – todo o resto (e aqui me incluo) é diálogo, trama, texto e intertexto.

Clarice se absteve de nomear o inominável, ainda assim, vem dela a melhor definição de sentido que conheço:  "Então escrever é o modo de quem tem a palavra como isca: a palavra pescando o que não é palavra. Quando essa não-palavra morde a isca, alguma coisa se escreveu. Uma vez que se pescou a entrelinha, poder-se-ia com alívio jogar a palavra fora. Mas aí cessa a analogia: A não-palavra, ao morder a isca, incorporou-a. O que salva então é escrever distraidamente".

Distraidamente é um ótimo advérbio para esse blog. Mas podemos lançar outras iscas para pescar/construir sua identidade, seu nascimento: inadvertidamente, vagarosamente, descompromissadamente, prazerosamente...